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No Brasil, uma de cada cinco crianças de oito anos não sabe ler

educacao-escola-sala-de-aula-20140528-001-originalQuando chegam ao fim do terceiro ano do Ensino Fundamental, uma em cada cinco crianças de oito anos (22,2%) não consegue ler uma frase inteira. Nesse período, em que deveriam estar completamente alfabetizadas, elas decifram apenas algumas palavras isoladas, de acordo com os dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), nesta quinta-feira (17).

Além disso, mais da metade dos alunos (56,17%) só é capaz de encontrar uma informação em textos se ela estiver na primeira linha, o que revela o baixo fôlego de leitura dos alunos. Se precisa escrever um texto, um em cada três estudantes (34,4%) produz frases ilegíveis, com troca ou omissão de letras nas palavras. Em matemática, a maioria dos estudantes (57%) não consegue solucionar questões com números maiores que 20 ou ler as horas em um relógio de ponteiros.

A avaliação do MEC mede as habilidades de leitura, escrita e matemática de todos os alunos do país até o terceiro ano do Ensino Fundamental. No ano passado, os cerca de 2,3 milhões de estudantes de 49 000 escolas públicas dessa etapa foram avaliados de acordo com o nível em que se encontram nas três áreas. Na escala de leitura, por exemplo, o nível 1, onde estão 22,2% das crianças, é considerado inadequado. Na de escrita, os níveis 1 a 3, em que estão 34,4% dos alunos, são inadequados.

Em evento em São Paulo, nesta terça-feira (15), o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, adiantou que os níveis 1 e 2 da avaliação “inquietam”. “Em países desenvolvidos e em boas escolas, as crianças estão alfabetizadas muito antes dos oito anos e isso precisa ser uma meta no Brasil”, afirmou.

Diferenças por Estado – No país, as regiões Norte e Nordeste têm os piores resultados. Na escrita, apenas 3,72% dos estudantes do Nordeste e 4,12% do Norte alcançaram o melhor nível da avaliação. No Sul e Sudeste, o registro de alunos nesse patamar foi, respectivamente, de 32,55% e 36,13%. Para a escrita alcançar o melhor nível de avaliação, os estudantes precisam ter capacidade de escrever palavras com diferentes estruturas silábicas e um texto corretamente e com coerência.

Na leitura, apenas sete Estados (Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram resultados positivos, ou seja, mais de 50% dos alunos ficaram nos níveis mais altos.

Em matemática, alunos de cinco Estados (Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e São Paulo) alcançaram as notas mais altas. Nos outros 22 Estados, as notas ficaram nos níveis mais baixos de aprendizado.

Matemática – De acordo com os resultados da ANA, 17,7% dos estudantes brasileiros estão no nível 3 em matemática, ou seja, são capazes de solucionar problemas com números maiores de 20 e fazer divisões exatas com o apoio de imagens. No nível 4, o mais alto da escala, estão um quarto dos estudantes (25,15%). Eles conseguem ler as horas em relógios analógicos, alguns elementos em gráficos de barras e são capazes de fazer subtrações com centenas e divisões em partes iguais sem o auxílio de imagens.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do MEC responsável pela ANA, os resultados do exame de matemática estão ligados às notas da avaliação de leitura, pois, para interpretar os problemas e transformá-los em cálculos é necessária a habilidade de leitura e compreensão dos enunciados.

Exame cancelado – A ANA foi criada com o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2012. Os indicadores de 2014 são semelhantes aos números de 2013, primeiro ano em que a avaliação foi feita. Na época, o MEC não divulgou oficialmente os dados da edição por considerá-los apenas um diagnóstico inicial.

Em relação à edição anterior da ANA, houve estagnação nos indicadores. Naquele ano, 57% dos alunos ficaram nos dois primeiros níveis de leitura. Em Matemática o porcentual foi de 58%. Já em escrita, 41,5% haviam ficado nos dois patamares inferiores – à época, a escala usada era de quatro níveis (este ano são cinco).

No início de julho, o MEC cancelou a realização da ANA de 2015. De acordo com o professor Francisco Soares, presidente do Inep, a decisão refletiu a necessidade de cortes financeiros, mas também questões pedagógicas. “Todos tinham de contribuir (com o ajuste fiscal). Mas tem um caráter pedagógico importante”, disse. Há a possibilidade de que a prova seja aplicada a cada dois anos.

 

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Rede estadual paulista perde 1,8 milhão de estudantes em 14 anos

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A rede estadual paulista de ensino perdeu 1,8 milhão de alunos entre 2000 e 2014, segundo estudo da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). A queda do número de crianças e jovens em idade escolar, a municipalização do Ensino Fundamental e a migração para a rede privada explicam a mudança.

O total de matrículas na rede estadual caiu 32,2% – de 5,6 milhões para 3,8 milhões. Os sistemas municipais, no mesmo período, ganharam 700 000 matrículas. Já a rede privada cresceu em 265 000 alunos em São Paulo. Essas mudanças acompanham a tendência nacional.

Com a queda das taxas de fecundidade entre as paulistas, o efeito demográfico nas matrículas deve se manter. Até 2030, a população de 6 a 17 anos no Estado terá 6,8 milhões de pessoas a menos, estima a fundação.

Coordenação do ensino – O avanço da municipalização do ensino fundamental, iniciada na década de 1990, também influencia. Nesse processo, escolas estaduais são transferidas para a gestão dos municípios. Com isso, União e Estado terão papel ainda mais decisivo na coordenação de políticas públicas. Cidades pequenas, em geral, têm menos verbas e expertise para estruturar a oferta de ensino.

“A articulação é necessária para garantir uma educação mais homogênea, do ponto de vista de conteúdo e de qualidade”, diz Rafael Camelo, assessor técnico da Fundação Seade e responsável pelo estudo.

A migração para a rede privada reflete o crescimento de renda no período. A classe C, que matriculava os filhos em colégios públicos, passou a escolher a rede privada – o aumento de matrículas nessa faixa de renda foi proporcionalmente maior do que nos estratos mais ricos. O ritmo da mudança, porém, pode cair em razão crise atual.

Consequências – A diminuição de matrículas levou à queda no tamanho das turmas na rede estadual. Em 2007, a média era de 31,3 alunos nas salas dos anos iniciais do fundamental (1º. ao 5º. ano) e 35,4 nos anos finais (6º. ao 9º. ano) da mesma etapa. No ensino médio, era de 36,6. Em 2014, essa média caiu para 27,8 alunos no primeiro ciclo do fundamental. No segundo ciclo, passou para 31,2 e, no ensino médio, foi de 34,3.

“Se tivermos o mesmo estoque de professores e de estrutura, a tendência é melhorar a aprendizagem”, explica Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco. Mas a redução de alunos, diz ele, demora alguns anos para se traduzir em melhoria de qualidade.

(Com Estadão Conteúdo)

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